Nos últimos anos, o Brasil consolidou um retrato preocupante sobre a saúde mental no ambiente de trabalho. Segundo o Ministério da Previdência Social, em 2025 o país registrou mais de 4,1 milhões de benefícios por incapacidade temporária, o maior volume dos últimos cinco anos.
Desse total, 546 mil afastamentos tiveram como causa transtornos mentais e comportamentais. Para além do INSS, o relatório World Mental Health Day 2024, do Instituto Ipsos, aponta o Brasil como o quarto país com maior nível de estresse global.
Esse cenário já seria suficiente para acender um alerta dentro das organizações. Mas, agora, passa a ter peso jurídico, já que a NR-1 inclui oficialmente os riscos psicossociais entre os fatores que precisam ser identificados, avaliados e gerenciados no ambiente de trabalho.
Nesse contexto, preparar lideranças para reconhecer, acolher e prevenir o adoecimento das equipes virou imprescindível. E é aqui que o Mentoring Autêntico tem um papel estratégico a cumprir. Ao longo deste artigo, vou explicar como.
O que é a NR-1 e o que muda de verdade para as lideranças?
A NR-1 (Norma Regulamentadora nº 1) estabelece as disposições gerais e diretrizes básicas de Segurança e Saúde no Trabalho no Brasil. Durante décadas, esteve associada principalmente à prevenção de acidentes físicos, ao uso de equipamentos de proteção e à gestão de riscos tangíveis. Mas a atualização da norma inclui os riscos psicossociais no radar das empresas.
Trata-se de uma mudança estrutural no modo como as organizações precisam encarar a saúde mental no trabalho.
Apesar da possível postergação, a NR-1 se materializará no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), que passa a exigir a inclusão explícita dos riscos psicossociais, que são eles:
- Estresse excessivo;
- Sobrecarga mental;
- Assédio;
- Conflitos recorrentes;
- Jornadas imprevisíveis;
- Gestão abusiva.
Todos esses itens entram para a lista de fatores de risco ocupacional, a serem identificados, avaliados, controlados e documentados com o mesmo rigor aplicado a qualquer outro risco tradicional.
Nesse contexto, quem ocupa posição de liderança entra com peso total. Nenhuma avaliação de riscos psicossociais terá resultado real se as pessoas que lideram equipes não estiverem genuinamente engajadas nesse processo, e a norma exige uma mudança real na cultura de inúmeras empresas.
Para as organizações que ainda enxergam isso como “mais uma burocracia do RH”, vale um alerta: a ausência de gestão documentada dos riscos psicossociais poderá ser invocada como elemento de culpa mesmo em casos em que o adoecimento ainda não se materializou em afastamento ou ação judicial.
Liderança e saúde mental: proteção ou risco?
Existe uma pergunta que toda organização se deveria fazer antes de pensar em qualquer programa de bem-estar: que tipo de liderança está à frente das equipes?
Uma pesquisa da Conexa, realizada com 1.174 colaboradores, revelou que 76,3% acreditam que seus gestores afetam diretamente seu bem-estar no trabalho. Entre os que se sentem influenciados, 37,5% apontaram a ansiedade como o principal sentimento gerado pela relação com quem os lidera.
O Workforce Institute foi além ao entrevistar mais de 3.000 pessoas em dez países. Concluiu que líderes impactam a saúde mental dos colaboradores em 69% dos casos, mais do que terapeutas (41%) e tanto quanto um parceiro amoroso.
Esses dados ajudam a entender por que a qualidade da liderança se tem tornado um ponto tão crítico. Afinal, o clima emocional de uma equipe costuma refletir o comportamento de quem ocupa a posição de comando. Uma condução clara, justa e atenta tende a se traduzir em relações mais estáveis, maior confiança e um ritmo de trabalho que não desgasta as pessoas ao longo do dia.
Por exemplo, líderes que reconhecem o esforço da equipe, oferecem direção e não tratam o erro como ameaça tendem a construir um espaço em que as pessoas trabalham com mais segurança e menos medo. Hoje, essa segurança psicológica é um dos fatores mais relevantes para prevenir adoecimento.
Por outro lado, quando a condução é marcada por metas incompatíveis com a realidade, ausência de retorno ou pressão constante, o efeito também aparece rapidamente. É comum observar equipes que, apesar da competência técnica, começam a perder desempenho, acumulam conflitos e apresentam rotatividade acima do normal.
Quase sempre, ao analisar a origem do problema, o que se encontra é uma liderança que, de forma gradual, desgastou a motivação e a confiança do time.
No fim, tudo converge para uma mesma constatação: líderes não coordenam apenas entregas; influenciam diretamente o estado emocional das pessoas. E, com a entrada da NR-1, essa influência ultrapassa a esfera ética e passa a ter peso jurídico.
Para ampliar esse debate, recomendo a leitura do artigo Líderes mentores e doenças ocupacionais.
Mentoring Autêntico: a resposta que vai além da conformidade com a NR-1
Falar em saúde mental nas organizações sem falar em como as pessoas são lideradas é tratar o sintoma e ignorar a causa.
Ao longo de quase duas décadas desenvolvendo o Mentoring Autêntico, uma das convicções que mais se consolidou na minha prática é esta: não existe cultura organizacional saudável sem liderança que saiba, de fato, cuidar de gente.
O problema é que, durante muito tempo, o modelo dominante nas empresas foi outro. A liderança comando-e-controle (hierárquica, rígida, centrada no resultado a qualquer custo) produziu ambientes de medo, silêncio e esgotamento.
E isso não acontece por acaso, porque, quando o líder não constrói relações genuínas com sua equipe, o que fica é um abismo relacional que, com o tempo, cobra um preço alto em saúde, engajamento e retenção.
A Baterias Moura, onde atuei como consultor em mentoring organizacional, ilustra bem esse movimento. A então consultora de desenvolvimento humano da organização, Isabel Martins, descreveu assim os impactos percebidos pela empresa:
“O nosso índice de turnover é muito baixo e o nível de ascensão funcional é grande. Hoje, parte dos nossos 19 diretores foram estagiários, mostrando que nossa cultura de encarreiramento é bem forte. Diante dos relatos que temos, a mentoria aumenta o engajamento dos colaboradores. Os mentorados compartilham que, de 0 a 10, a mentoria contribui em 9,8 como motivador para permanecerem na empresa.”
Esse tipo de resultado reforça por que o Mentoring Autêntico é um componente direto da saúde mental das equipes, pois onde há vínculo, escuta e orientação há menos desgaste, mais clareza e maior disposição para permanecer e crescer.
Confira a entrevista completa de Isabel Martins sobre o mentoring na Baterias Moura.
Entenda o que é a Liderança Mentora
A Liderança Mentora é uma abordagem centrada no desenvolvimento das pessoas. O líder mentor não abre mão de metas e cobranças, mas entende que sua função vai além da gestão de entregas.
Ele orienta, oferece feedback construtivo, escuta com presença real e cria um ambiente em que as pessoas se sentem seguras para crescer, errar e se desenvolver. Ele se vale da autoridade do cargo apenas se for necessário
Esse efeito se torna ainda mais evidente em organizações que adotam o mentoring como pilar de desenvolvimento. A Rede de Supermercados São Luiz optou pelo Mentoring Autêntico para preparar suas lideranças em um momento de expansão. e Aline Nunes, Gerente de Desenvolvimento Humano, descreve assim a importância dessa escolha:
“Estamos vivendo um momento de expansão e nossa política interna propõe o crescimento dos colaboradores dentro das oportunidades que surgem a partir disso. Nesse sentido, entendemos que o maior parceiro do RH no desenvolvimento de líderes futuros são os próprios líderes atuais. Com isso, o Programa de Desenvolvimento de Líderes Mentores do Paulo fez muito sentido para a gente! (…) Com a implementação do programa, nós oficializamos tudo isso e ainda adquirimos um método, uma didática para disseminar ainda mais esse traço da nossa cultura. Então podemos dizer que a liderança mentora está na ponta da língua de todos por aqui!”
Para conhecer a história completa, vale conferir a entrevista de Aline Nunes e Isabel Viana, Business Partner do São Luiz.
O papel do Mentoring Autêntico na saúde mental dos colaboradores
O Mentoring Autêntico atua como uma alavanca de transformação cultural dentro das organizações, porque cria uma rede de apoio interna, acelera o desenvolvimento de novas lideranças e fortalece vínculos que ajudam a sustentar as pessoas nos períodos de maior pressão.
Segundo levantamento da CNBC/SurveyMonkey, 9 em cada 10 profissionais que contam com um mentor no trabalho se declaram felizes no emprego, e isso ajuda a explicar por que, nos EUA, a imensa maioria das empresas listadas na Fortune 500 já adotam programas estruturados de mentoring como parte da sua estratégia de gestão.
Com as novas exigências da NR-1, investir no desenvolvimento de líderes mentores passa a ser uma resposta prática às necessidades atuais das equipes.
Por isso, uma empresa que prepara suas lideranças para identificar sinais de adoecimento, acolher suas equipes e sustentar ambientes psicologicamente seguros está construindo uma cultura que protege pessoas e sustenta resultados no longo prazo.
Assim, diante das exigências da NR-1 e do cenário de adoecimento que as organizações brasileiras atravessam, é uma necessidade urgente preparar quem lidera para atuar com mais consciência, presença e capacidade de cuidar das pessoas ao seu redor.
Se a sua organização busca ir além da conformidade legal e quer construir uma cultura de liderança que de fato protege e desenvolve pessoas, conheça as soluções organizacionais da ERLICH MENTORING, entre elas o Programa de Desenvolvimento de Líderes Mentores e o Programa de Mentoring Organizacional.
E, se preferir começar por entender qual caminho faz mais sentido para a realidade da sua empresa, agende uma conversa conosco.



