Ser mentor é mais do que exercer uma profissão: é encontrar propósito no crescimento do outro

Mentora sorrindo para dois profissionais mais jovens que riem juntos, em fotografia a preto e branco sobre fundo azul

27 de outubro: Dia Internacional do Mentoring

Nos últimos anos, o Brasil viu a profissão de mentor/a crescer de forma expressiva. Isso é muito positivo. O verdadeiro mentoring pode ser uma oportunidade real de expansão profissional, reconhecimento, geração de renda e até de realização financeira. Quem se prepara com seriedade e atua com ética merece colher esses frutos.

Esse crescimento também trouxe um efeito colateral, que já comentei no artigo Para quem se incomoda com a banalização do mentoring (mentoria). Quando muita gente sem preparo passa a se intitular mentor, o conceito se distorce.

Neste Dia Internacional do Mentoring, quero olhar para o que fica além disso e propor uma reflexão: o que leva alguém a ser mentor/a para além do sucesso profissional? Para isso, pedi a alguns mentores autênticos que formei ao longo dos anos que fizessem estas reflexões: “Para além da profissão, o que significa ser mentor/a para você? Que sentido essa escolha traz para a sua vida?”.

Reuni as respostas com minhas próprias percepções e apresento neste texto as conclusões a que chegamos. Acompanhe!

Quando o dinheiro vira a única medida

Quando o ganho financeiro se torna o único critério de sucesso, o mentoring corre o risco de virar a venda de “fórmulas de sucesso”, respostas prontas e promessas de transformação irreais. Basta uma busca rápida nas redes sociais para ver isso acontecendo.

Nesse modelo, o mentor/a ocupa o centro da cena como o dono do saber, e o mentorado/a é só quem escuta e consome. Já no Mentoring Autêntico, aquele que eu pratico e ensino, existe um compromisso genuíno com o desenvolvimento humano e, por isso, o resultado muda.

O retorno financeiro pode continuar existindo, mas vem somado a uma atuação que valoriza, acima de tudo, a autonomia, o protagonismo e a aprendizagem do/a próprio/a mentorado/a. Mentores autênticos não ocupam o lugar central do processo. Eles agem como facilitadores do caminho. Resultado financeiro e propósito não são coisas opostas. O que muda é a ordem das prioridades.

O que leva alguém a ser mentor/a autêntico/a?

Em mais de uma década formando mentores autênticos, vi motivações bem diversas. Há quem queira compartilhar uma experiência acumulada ao longo de décadas. Há quem esteja iniciando uma nova etapa profissional, quem queira expandir a sua atuação, empreender ou conquistar ganho financeiro. E há quem simplesmente tenha descoberto uma nova forma de contribuir com o mundo. Todas essas motivações são legítimas. O que me chama atenção é que, com o tempo, quase todos os mentores autênticos acabam trazendo algo em comum: a busca por sentido.

Depois de quase 35 anos no mundo corporativo, Fábio Vertullo diz que foi escolhido pelo Mentoring Autêntico: “A mentoria se tornou uma forma de me reconectar com meu propósito: contribuir para o desenvolvimento das pessoas.” Para ele, ser mentor vai além de orientar carreiras: “é gerar impacto na trajetória de outras pessoas enquanto continuo aprendendo e evoluindo.”

Edgar Tamberg, que liderou pessoas e operações por muitos anos, percebeu algo parecido: “Alguns dos resultados dos quais mais me orgulho não aparecem nos indicadores, mas no crescimento das pessoas com quem trabalhei.” O Mentoring Autêntico, segundo ele, permite continuar contribuindo para esse desenvolvimento e traz “uma satisfação muito especial” nesta fase da vida.

Alberto Gazzo diz que ser mentor “contribui para ser melhor ser humano, pois ajudar os outros a crescerem ajuda a mim mesmo a crescer também.”

Elcio Alves vê no Mentoring Autêntico a oportunidade de passar experiências e conhecimentos e, ao mesmo tempo, “uma forma também de receber informações e manter-me atualizado”. O que mais o realiza é “perceber o crescimento como profissional e principalmente como pessoa”, além de receber “gratidão e reconhecimento eternos”.

Importante dizer que este não é um discurso contra remuneração ou reconhecimento. Eles importam e continuam existindo. Mas há um retorno que nenhum indicador captura e é ele que sustenta o/a mentor/a autêntico/a quando o cansaço aparece. Foi sobre isso que escrevi neste artigo: quem encontra propósito como mentor/a não precisa fabricar promessas, porque a realização vem do processo e do resultado que o/a mentorado/a constrói.

Sentimento de generatividade é um dos retornos do Mentoring Autêntico

Existe um conceito da psicologia do desenvolvimento, formulado por Erik Erikson, chamado generatividade. É a necessidade, que costuma ganhar força na maturidade, de contribuir para as gerações seguintes, de deixar algo que continue vivo depois de nós.

Luciana Rodrigues a expressa de forma muito clara. Para ela, ser mentora é “consolidar um legado de aprendizados e vivências”, repassando de forma já analisada e revisada tudo o que viveu, experimentou, errou e acertou. Os erros deixam de ser só história e viram patrimônio para quem vem depois.

Fábio, que foi professor universitário por muitos anos, acompanha até hoje a evolução de ex-alunos e diz que ver suas conquistas lhe traz enorme felicidade e orgulho.

O/A mentor/a autêntico/a não guarda o que aprendeu. Compartilha, com método e cuidado, para que o outro aproveite sem precisar errar tudo de novo. E quem já chegou aos 60 sente uma satisfação especial ao contribuir com os mais novos, pois sabe que está deixando um legado. Esse é o sentimento de generatividade que o Mentoring Autêntico gera.

Mentoring Autêntico é via de mão dupla

Muita gente chega ao mentoring achando que vai ensinar. Quase todos descobrem que vão aprender.

Luciana percebeu isso já nas primeiras mentorias “teste”: à medida que conduzia, questionava e trazia insights, notava que aquelas conversas serviam também a ela. “A cada novo processo e encontro, uma parte de mim também era desenvolvida e atingia um novo patamar.”

Edgar conta que as dúvidas dos mentorados o levaram a revisitar decisões e a questionar certezas construídas ao longo da carreira. “Foi interessante descobrir que, mesmo depois de tantos anos de experiência, ainda tenho muito a aprender.”

Helio Curi sintetiza: “Quem ajuda alguém a crescer também cresce nesse processo.” E Fábio acrescenta que o contato com histórias e realidades diferentes das suas fortalece a empatia e o torna “uma pessoa mais humana, consciente e aberta à diversidade de experiências”.

Isso é o que há de mais contrário à imagem do/a mentor/a tipo guru que detém todas as respostas. No Mentoring Autêntico, dois adultos se encontram, e os dois saem diferentes. Eu mesmo vivo isso a cada turma que formo e a cada Programa de Mentoring que acompanho dentro das organizações. Cada vez que penso que já sei o que é desenvolver pessoas, alguém me mostra um ângulo novo.

O sucesso do mentor/a autêntico/a é não ser mais necessário/a

Se o Mentoring Autêntico é uma relação de crescimento mútuo, qual é o sinal de que ele funcionou? Para mim, é quando o/a mentorado/a já não precisa de nós para decidir.

Edgar disse isso de uma forma que não esqueço. O que mais o realiza é ver o/a mentorado/a confiar mais nas próprias decisões, questionar suas opiniões e encontrar soluções que ele/a mesmo/a talvez não tivesse considerado. E completa com uma pergunta: “Afinal, que sentido teria desenvolver alguém se essa pessoa continuasse precisando de nós para decidir?”

Carlos Alberto Gonçalves descreve assim o mesmo ponto de chegada: “Ver a pessoa conquistar autonomia e protagonismo.” Cada pequena vitória, como a aprovação na entrevista, o cargo conquistado ou a confiança que surge, confirma que valeu a pena. Helio fala do momento em que a pessoa ganha confiança, encontra clareza para decidir e transforma ideias em ações.

Esse é o paradoxo do/a bom/boa mentor/a autêntico/a: ele/a trabalha para que, a certa altura, não seja mais necessário/a. Quem constrói dependência pode até ter uma carteira cheia de clientes, mas não está fazendo Mentoring Autêntico.

Um convite para ressignificar o sucesso

O meu convite, no Dia Internacional do Mentoring, é que você amplie a sua definição de sucesso. O reconhecimento do mercado, a percepção de valor e o retorno financeiro são conquistas importantes. Mas existem outras medidas, tão agregadoras quanto elas: o aprendizado mútuo, o legado, a gratidão de quem você ajudou e a sensação de estar usando a sua experiência para algo maior.

Essas recompensas andam juntas com mais facilidade do que parece. Sucesso com propósito é possível, e os mentores que convidei para este artigo são a prova disso.

Feliz Dia do Mentoring a todos os mentores que escolheram fazer do crescimento do outro um propósito de vida!

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